Plásticos, bioplásticos & cia 

O que é verde de verdade, o que é confusão, e o que é greenwashing

Cada vez mais sabemos do impacto que causamos ao planeta, pelo que usamos de recursos e o que deixamos de detritos. Por conta dessa consciência crescente, é do interesse da indústria oferecer produtos, serviços e materiais com cada vez menos impacto, certo? O problema é que, como tudo o que ‘está em alta’, todos querem participar – mesmo que seus produtos não sejam os mais adequados. 
Assim, os produtos de fato “verdes” são mais e mais difíceis de identificar. Isso acontece em todas as indústrias, mas hoje queremos falar sobre os plásticos. 
Atualmente existem plásticos verdes e bioplásticos de origem vegetal ou de soro de leite, plásticos degradáveis e biodegradáveis – e dentro disso novos nomes como oxibiodegradáveis, hidrobiodegradáveis e hidrossolúveis. O problema é: entre tantos nomes e promessas, como vamos saber o que é melhor para o planeta? 
Muitas vezes o que parece ser bom para o meio ambiente na verdade não é. Por isso fomos pesquisar mais sobre os plásticos e bioplásticos e fizemos um resumão para você fazer suas escolhas conscientemente 😉
Por que criar novos plásticos? Qual o impacto do plástico tradicional?
A origem do plástico tradicional é o petróleo, que sabemos ser uma fonte não renovável, poluente e agressivo na extração e tratamento. Muitos dos plásticos não são sequer recicláveis. 
Sabia que, a cada ano, 270 milhões de toneladas de plástico são produzidas no mundo? E que 40% disso é plástico de uso único? São potes, copos, canudos, colheres, embalagens que vamos usar apenas uma vez e descartar. A maior parte é descartada de forma incorreta, tornando a reciclagem impossível. Um uso, e séculos no meio ambiente. 
Os especialistas já sabiam que o plástico causava problemas sérios para todos os tipos de animais, e que ao ir se degradando voltava para nós pela cadeia alimentícia. O que pesquisas recentes mostram agora é que o plástico está voltando para nós pela água que bebemos! A água engarrafada e a de torneira estão contaminadas em cidades no mundo todo. 83% das amostras de águas em 5 continentes tinham fibras plásticas. 
Cada vez mais entendemos que o impacto no planeta é um impacto para todas as formas de vida. Por isso a necessidade de repensar nosso uso do plástico e pensar em alternativas. Aí entram os plásticos verdes, bioplásticos e plásticos biodegradáveis.
Ser de fonte renovável não é a mesma coisa que ser reciclável ou biodegradável

Bioplásticos, biopolímeros e plásticos verdes

De acordo com a definição da European Bioplastics Association, plásticos produzidos a partir de fontes renováveis e/ou plásticos biodegradáveis são classificados como bioplásticos ou biopolímeros. 
O que precisamos entender aqui é que existem dois âmbitos que estão sendo misturados, tanto na classificação, quanto no discurso dos fabricantes: Uma coisa é de onde esse plástico veio, e a outra é para onde ele vai. Ou seja: 
De onde veio:
Ele é fabricado usando uma fonte renovável, como amido de milho ou cana de açúcar? ou uma fonte não renovável como petróleo? 
Não há duvidas que a extração de petróleo é extremamente prejudicial ao meio ambiente, e os refugos industriais do tratamento mais ainda. Mas nem as fontes renováveis como a cana de açúcar não são isentas de impacto: monocultura, empobrecimento do solo, processamento poluente – e há refugos de produção também. Nada que é feito em grandes quantidades pode ser considerado sem impacto. 
Para onde vai:
Quando descartado, vira lixo e contaminante, é reciclado ou ele consegue se decompor por completo?  Lembrando que ser reciclável não quer dizer que ele seja de fato reciclado.
O plástico tradicional, de petróleo, demora entre 200 e 450 anos para se decompor – e ainda não sabemos o efeito que tem a “sobra” após a decomposição. Como foi inventado há menos de 100 anos e popularizado nos últimos 60, não vivenciamos esse impacto. 
Alguns, de origem vegetal, são feitos para parecerem o plástico tradicional têm a mesma dureza, mesma resistência e mesma estrutura. A vantagem da sua produção é uma menor pegada de carbono. Mas, por sua origem (petróleo), os microorganismos não conseguem “digerir”, ou seja, não são biodegradáveis. É o caso do plástico verde de cana de açúcar. 
O plástico biodegradável surgiu na década de 70, porém apenas a partir do ano 2000 passou a ser conhecido mundialmente. O que é um plástico biodegradável? é um plástico que deve ser totalmente degradado em um prazo máximo de 18 meses. Mas, o que nem sempre é dito, é que essa degradação só acontece nas condições ideais. Os aterros e lixões não têm a luminosidade, o ar e as bactérias necessárias para que isso aconteça – e sua decomposição acaba liberando metano na atmosfera. 
Atualmente muitas empresas adicionam catalizadores aos plásticos, para acelerar a decomposição. Ou seja, ao invés de 200 anos, demora 1,5 ano para desaparecer. Mas esse tipo de decomposição também é um problema, porque além de fazer com que o plástico não seja reciclável, deixa microplásticos para trás. Neste caso, ao invés de um plástico grande, teremos milhões de plásticos pequenos
São esses microplásticos, derivados de plásticos com aditivos catalizadores, que estão contaminando nossos mares, água potável e podem ser encontrados até nas geleiras! Infelizmente, pelas normas nacionais e internacionais, eles ainda podem ser chamados de biodegradáveis. 
Da mesma forma alguns plásticos mistos, feitos com mescla de material fóssil e material vegetal, podem ser chamados de biodegradáveis mesmo que deixem resíduos tóxicos.
Há outros plásticos que são de origem natural e podem ser reabsorvidos inteiramente pelo ambiente, já que tem uma estrutura química compatível com as bactérias: São os biodegradáveis e compostáveis.  
Nas condições corretas de descarte, tem impacto mínimo, sendo transformados em substancias mais simples tais como CO2, H2O, CH4, etc. 
Estes são chamados de biopolímeros e bioplásticos, mas estes nomes também podem ser aplicados aos plásticos “biodegradáveis” citados anteriormente – aqueles com catalizadores ou mistos… Ou seja, é muito difícil separar um do outro apenas por esta nomenclatura.
As informações dos fabricantes nem sempre são claras, por isso precisamos ficar atentos e procurar entender o que estamos consumindo. 
Veja abaixo alguns bioplásticos mais utilizados no Brasil, do que são feitos e como se degradam: 

1. Polietileno verde, ou plástico verde

De onde vem: Fonte renovável (cana-de-açúcar)
Para onde vai: Não biodegradável
Este plástico vem do etanol de cana-de-açúcar. Como é estruturado exatamente igual a um polietileno de origem fóssil (petróleo), tem as mesmas propriedades, desempenho e versatilidade de aplicações. A única diferença é a matéria-prima utilizada na sua produção, que, em vez de ser o petróleo, é a cana-de-açúcar, o que torna sua produção 40% mais cara. Estima-se que um hectare de cana-de-açúcar gera três toneladas de plástico verde. Apesar de reduzir a petroquímica na produção e comercialização, ele não melhora o descarte por não ser biodegradável. Ainda assim, pode ser classificado como um bioplástico por ser produzido de uma fonte renovável. É reciclável e não contribui com o aquecimento global, mas não é biodegradável. Entende a confusão?

2. Plástico Oxibiodegradável ou OBP

De onde vem: fonte não renovável (petróleo)
Para onde vai: Se ‘decompõe’ em até 6 meses, mas deixa partículas de plástico residuais
Este plástico recebe um aditivo oxidante que acelera a decomposição dele, mas tem sido criticado por inviabilizar a reciclagem e ainda gerar microplástico como resíduo. Esse pó contamina as correntes de água e o mar,  por isso podem ser ingeridos e entrar na corrente sanguínea. Em Salvador, por exemplo, uma pesquisa comprovou que 22% dos peixes capturados continham micropartículas plásticas em seus organismos. 
Este material é considerado por muitos especialistas um paliativo com muitos prejuízos

3. Polímero de Amido ou PA

De onde vem: fonte renovável (amido)
Para onde vai: 100% compostável, biodegradável
Este bioplástico é feito com amido de milho e fécula de mandioca. Para que se degrade adequadamente precisa ser descartado corretamente, em uma composteira. Os aterros sanitários não tem as condições adequadas para sua decomposição, por isso vão demorar mais do que demorariam em composteiras para se degradar e vão gerar algum impacto – ainda que menor. Se comportam como resíduos orgânicos e emitem gás metano em sua decomposição.

4. Polímero de Ácido Poliláctico ou PLA

De onde vem: fonte renovável (ácido láctico)
Para onde vai: 100% compostável, biodegradável
Este bioplástico é feito a partir de ácido láctico produzido por bactérias, na fermentação de amidos, xaropes açucarados como melaço, ou no soro do leite. Tem inúmeras aplicações e pode inclusive servir de matéria prima para a impressão 3D. Se degrada em até 6 meses se descartado em condições ideais, como uma composteira

5. Polihidroxialcanoato ou PHA

De onde vem: fonte renovável (cepas de bactérias ou lixo)
Para onde vai: biodegradável
É um material flexível e atóxico, que pode ser usado em produtos do dia a dia e até em implantes médicos, por ser biocompatível. Pode ser manipulado em equipamentos usados para plásticos tradicionais. Originalmente feito com engenharia genética ou limitação de nutrientes de bactérias, descobriu-se que é possível produzir este plástico a partir de resíduos de efluentes, óleos vegetais, ácidos graxos e carboidratos simples. Isso trouxe dois benefícios: redução do custo de produção e do lixo

6. Polímero hidrossolúvel

De onde vem: fonte renovável (eteno)
Para onde vai: biodegradável
Este bioplástico é um polímero sintético, que começa sua vida como etileno, um hormônio natural gasoso liberado pelas plantas que faz a fruta amadurecer. Esse material também é chamado de álcool polivinílico. Para o hidrossolúvel o etileno é produzido sinteticamente, mas idêntico à natureza, e depois é dissolvido em álcool para se tornar um polímero solúvel em água. “Derrete” na água e é totalmente biodegradável e não tóxico.
Montamos um gráfico simplificado para facilitar essa confusão toda:
Dá pra ser biodegradável e poluente ao mesmo tempo, maluco isso, não?

E agora, como a gente faz? A realidade é que, por mais que encontremos alternativas, nenhuma delas é uma solução definitiva – e muito menos mágica. Precisamos repensar nossa relação com o plástico: reduzir o consumo e descartar da forma correta. Ou seja, usar quando for necessário apenas, higienizar e reciclar o que for reciclável e compostar o que for compostável. 

 

Quer dicas para melhorar sua relação com os plásticos?
Veja aqui alguns artigos que podem ajudar:
Fontes:
ABNT, Um Ano Sem Lixo, BetaEQ, So Biologia, UFRG, UNESP, Braskem, RES Brasil, eCycle, Folha Uol, Mundo Educação Uol, Abras, RTP.pt, Plastico.com.br, Pensamento Verde, Eco Tecologia, Brasil Escola, Editora Abril: SuperInteressante, Planeta Sustentável, Viaje Aqui
Consulta feita no período de Agosto a Outubro de 2018

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