Dezembro Verde: Mês de conscientização e combate ao abandono

O problema

A proporção de cães nas grandes cidades é de um para cada cinco habitantes, e 10% deles estão abandonados. A Organização Mundial da Saúde estima que só no Brasil existam mais de 30 milhões de animais abandonados, sendo 20 milhões cães e 10 milhões gatos. 

Estes números não contam os cães semidomiciliados, que são cães com dono, mas que vivem nas ruas. Sabia que 25% dos cães semidomiciliados morrem todo ano?

Segundo levantamento da Veja São Paulo, com 10 instituições atuantes na causa animal na capital, são resgatados pelo menos 500 animais nas ruas por mês 6.000 ao ano. A parte mais triste é que grande parte desses cães já teve uma casa e foi abandonada pelo dono. 

Mesmo o abandono de animais de estimação sendo crime (previsto na Lei Federal 9.605/98O), ele ainda é um problema crescente, que no período de férias se torna crítico. 

Por isso o Dezembro Verde é uma campanha tão importante: os proprietários vão viajar e não têm com quem deixar (ou não querem gastar com hoteizinhos) e optam por descartar os animais. Mas por quê essa medida extrema e cruel parece uma opção na cabeça de tanta gente? 

Achamos que pode ter a ver com os seguintes mitos:

“Cães de rua se viram, vira-latas vivem mais”

Muita gente imagina que os cães, por serem inteligentes e adaptáveis, vão se virar bem nas ruas. A maior parte dos cães domésticos adoece pela falta de água limpa, por brigas com outros cães por conta de comida, pelo frio, calor e falta de higiene. A falta de vacinação torna doenças simples uma sentença de morte. Gostamos de imaginar os animais como silvestres, mas as nossas cidades não são como a natureza, não tem o que caçar ou rios para beber água, não tem frutas ou folhas que possam comer sem se contaminar: o que encontram é asfalto, lixo, roedores e aves com doenças, maus tratos e crueldade animal. Nem precisamos entrar em detalhes de casos cruéis como a cachorrinha morta no Carrefour. 


“Alguém vai pegar e vai adotar”

Apenas 1 em cada 10 é resgatado e adotado. Os meios institucionais oficiais não têm espaço ou cuidados para tantos animais, tendo que sacrificar muitos dos que são resgatados e não são adotados. 

Os cães adultos, mesmo quando são resgatados por ONGs e instituições particulares, chegam a passar anos sem nunca serem adotados. Na hora da adoção, muitas pessoas dão preferência a filhotes ou cães de pequeno porte. Os gatos sofrem até mais, pois aprendem a temer os humanos, tornam-se ferais e de difícil resgate e socialização.


“Gatos são independentes, sabem viver nas ruas”

É um mito muito difundido, e falso!

Gatos domésticos não sabem viver nas ruas, sem abrigo contra a intempérie, sem acesso a comida ou afeto. Gatos precisam beber muita água limpa pois são propensos a problemas renais, sofrem com fungos e gripe felina contagiosa e potencialmente fatal. Não têm água, abrigo ou sequer animais para caçar nas cidades (mesmo se for um gato que saiba caçar)


Depois de mais de onze mil anos vivendo ao nosso lado, cães contemporâneos não são mais os animais silvestres independentes que costumavam ser. Assim como os gatos. Nós fomos selecionando os que tinham características que mais nos agradavam, como docilidade e lealdade, habilidade para caça ou companhia, e os transformamos em espécies úteis pro convívio humano. Os cães passaram a identificar seus humanos como parte do seu grupo (como se fossemos uma matilha). Houve uma convergência evolutiva, e estes animais não seriam o que são sem nós. 

Nós os transformamos em seres que precisam de nós para abrigo, alimento e segurança

“Ele encara a família humana como o seu grupo, no qual encontra segurança, abrigo e alimento. Por isso, ficar distante desse ambiente causa muito sofrimento para os cães”
Carolina Rocha, especialista em comportamento animal

A lealdade e o afeto dos animais é incondicional. Poucos casos ganham atenção da mídia. Temos casos nacionais como a família de Macapá que se mudou, abandonando o cão que esperou 15 dias na porta de casa antes de ser resgatado em 2016, e casos internacionais famosos como Hachiko, o Akita que esperou seu dono na estação de trem por anos inspirando um filme. Mas estas histórias acabaram bem, com os cães sendo cuidados. Não é o que acontece com a maioria.

 

Expectativa de vida

Doméstico
“De rua”
Gato
~13 a 17 anos
~3 anos
Cachorro
~10 a 15 anos 
~2 anos

Você sabia que os gatos domésticos quando abandonados têm uma expectativa de vida de 3 meses? E que os cães semidomiciliados (com dono mas que ficam na rua) têm expectativa média de vida de 4 anos

Com tantos cães abandonados, de rua e semidomiciliados, não é de se espantar que a média de expectativa de vida dos cães no Brasil seja de apenas 3 anos. Bem distante dos nossos aumigos que tomam todas suas vacinas, comem adequadamente, são estimulados fisicamente e protegidos passam dos 15, ou dos nossos miaus que podem chegar a mais de 20.

 

Justificativas

A grande maioria dos abandonos acontecem por motivos banais: o animal apresenta carrapato, alguma doença ou as pessoas se mudam para apartamentos. O problema é que não se procura alguém na família ou amigos próximos que possam adotar esse animal e essas pessoas preferem ir pelo caminho mais rápido e mais sofrido, que é o abandono”
Jane Hadhad, defensora de animais e diretora da Associação Piauiense de Proteção e Amor aos Animais (Apipa)

Quando tentamos investigar quais são as principais justificativas para os abandonos, vemos:

  • Cresceu mais do que esperava
  • Vou casar
  • Vou ter um filho
  • Vou me mudar
  • Vou viajar de férias
  • Não se adaptou em casa
  • Não é fotogênico
  • Tem problemas de comportamento (destrutivo, late demais, desobediente, morde)
  • Está dando muito trabalho (requer muita atenção, ativo demais)
Gatinha da ONG Crazy Cat Gang

Por aqui sempre reforçamos que qualquer comportamento animal tem uma origem. Se nosso cachorrinho está latindo muito, roendo os móveis, fazendo as necessidades no lugar errado, isso quer dizer algo – provavelmente é ansiedade, falta de atenção, de exercício. A verdade é que todo problema de comportamento canino pode ser compreendido e solucionado. E destes motivos citados apenas 2 têm a ver com o cão, o restante são circunstâncias da vida da pessoa que mudam e que passam a tornar o cão indesejado, independentemente de ser comportado ou não

Muitos gatos não são introduzidos e adaptados no lar adequadamente… em uma semana já são devolvidos por que “não se adaptaram”. Na verdade os tutores sequer deram tempo do gato conhecer a casa, entender seus cheiros, ou conhecer seu comportamento. E sabia que os gatinhos sofrem também com a estética? Os pretinhos são os menos adotados, assim como as fêmeas mescladas. E muitas pessoas que adotam depois devolvem por que não saem bem nas fotos. Soa justo?

 

O que pode ser feito

Para nós está sendo muito doloroso tratar deste assunto, como imaginamos que seja para vocês. Então vamos falar do que pode ser feito para ajudar a situação.

Em casa:

  • Não compre, adote! Se estiver pensando em ter um peludo canino ou um ronron, considere animais já adultos e até idosos. Eles precisam de mais ajuda do que os filhotes pois são menos adotados. 
  • Adoção Responsável: seja na sua casa, com seus amigos, converse sempre sobre a responsabilidade de ter um animal. São seres vivos e não brinquedos, tenha certeza que poderá suprir suas necessidades básicas e afetivas por toda a duração de sua vida. São amigos e companheiros para muitos anos. E tenha paciência na adaptação, seguindo as orientações de um profissional.
  • Bichinho na mala: Você pode levar o peludo junto com você em todo o Brasil. A Rede Ibis de hoteis, por exemplo, permite um cão por quarto. Existem muitos guias com pousadas, hoteis, hostels que são pet friendly. Mesmo que você tenha com quem deixar, pode ser uma boa levar ele pra passear. 
  • Em boas mãos: Se não puder levar mesmo, e não tiver condições de deixar em um hotel, conte com a ajuda de amigos, vizinhos, pessoas de confiança que poderão cuidar do seu companheiro. Cuide para que estejam em locais seguros, sem chance de fugir ou se machucar.

Na sua comunidade:

  • Informação e conscientização: muitas pessoas abandonam seus bichos por falta de informação. Compartilhe estes dados com o máximo de pessoas que puder, para quebrar os mitos de independência dos cães e gatos. Quem sabe entendendo as consequências reais do abandono as pessoas possam repensar as alternativas que tem. 
  • Denúncia ou mobilização: se você sabe de algum caso, ou viu alguém abandonando, e não existe chance de dialogar com a pessoa, procure as autoridades ou organizações não governamentais de cuidado animal. Se houver maus tratos pode denunciar na delegacia. Pode contar com o Centro de Proteção ao Animal Doméstico e até com o Ibama ou Disque meio ambiente. Se puder ser lar temporário para esse animal, ou ajudar a conseguir algum, será menos sofrido para ele.
  • Acompanhe uma ONG na sua cidade: Você pode apadrinhar um animal, voluntariar em eventos de adoção, doar, ajudar com ração, serviços, divulgação, ou qualquer contribuição ao seu alcance. 
Vamos espalhar estas informações para o máximo de pessoas possível? O que acha de termos um Dezembro Verde cheio de conscientização e combate ao abandono?

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