Dia dos pais: O que é ser pai?

Para falar de paternidade precisamos falar de masculinidade. Por muitos anos ser criado homem tem sido aprender que precisa ser firme, não chorar, ter sucesso profissional e financeiro, ter força física, status sexual e não mostrar fraqueza frente a outros homens.

E o que se esperava de um pai? Que trabalhasse para fornecer casa, alimento e também fosse responsável pela disciplina. Não se esperava dos pais que fossem carinhosos, brincassem com seus filhos, que dessem banho, ou cantassem para eles dormirem. Estas eram tarefas das mulheres da família, certo?

Foto de Kelly Sikkema • Unsplash

Infelizmente 57% dos homens ainda se sentem pressionados a se comportar de acordo com essas noções fechadas do que é ser homem

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Em 2016 uma reportagem espanhola afirmou que “a nova masculinidade virá por meio de uma paternidade diferente”. E isso faz muito sentido, uma vez que muitos homens estão pensando a forma como foram criados e o que transmitem para seus filhos. Para entender melhor isso, nós falamos com alguns homens sobre o que a paternidade significa para eles: 

É difícil. Ser pai é estar presente, e da forma como vejo é também educar de uma maneira não muito convencional.  Dar muito amor, ensinar coisas legais, coisas diferentes, outra visão do mundo e não enquadrar ela em nada. Deixar minha filha livre pra não precisar só ser menininha de rosa, se ela quiser fazer coisa de menino. Sou da aventura e tento passar isso pra ela não ficar presa, e aproveitar a vida. As vezes ensino coisas que a mãe dela não gosta muito, acha perigoso –  mas é algo entre eu e ela. As coisas que eu sofri espero que ela não sofra – na minha casa aprendi o que não quero ser: meu padrasto é totalmente autoritário.

Rafael • Programador

Rafa, sua filha Oli e o gatinho Jiraiya

Hoje, os pais não ocupam – ou não desejam ocupar – um papel de puro autoritarismo. Gritos e ordens não funcionam mais como reguladores do equilíbrio familiar.

(Mary Del Priore • História dos Homens no Brasil)

O antropólogo Ritxar Bacete afirma que sempre existiram pais, a diferença é que agora decidiram estar mais presentes, envolvidos, responsáveis. De uma masculinidade que é tóxica e limitante inclusive para os homens, vemos uma nova masculinidade e uma nova paternidade. 

Pra mim ser pai é se sentir responsável pelo bem estar, segurança, educação, valores pela construção de um ser humano novo. O filho transpassa o que você acredita. É muito clichê falar isso, mas você realmente quer ser melhor a cada dia para ser referência e guia pro seu filho.”
Fábio • Engenheiro.

Até pouco tempo atrás um pai cuidar do filho era um favor” para a mãe, algo pontual. É um conceito que está aí há tanto tempo que demora um pouco para ser desconstruído. Mas em poucos anos de mudança já estamos vendo frutos: cada vez mais homens que querem ser pais e cuidar com atenção e interesse da vida dos seus filhos, que passam tempo juntos porque curtem, que querem estimular sua criatividade e seus sonhos. Da fralda à pintura de dedo, da lição aos conselhos e conversas sinceras.

No começo você não tem noção nenhuma! Não tem noção do que é ter um filho, faz erros bestas de quem não sabe interagir, trocar uma fralda Quando ele era pequeno era difícil, vivia numa rotina de trabalho terrível, não tinha tempo nem de conversar com a minha esposa direito. Tinha pouco tempo, mas eu ajudava… Olha a palavra terrível! ‘ajuda!’ … Mas realmente naquela época era isso e eu não sabia, hoje em dia a gente divide.Complementou Fábio.

Fábio, seu filho Bento, Pepa e Lili

Pensava que o mundo se mudava a partir das estruturas. Mas me dei conta de que, na realidade, você tem que transformar a si mesmo, e a minha paternidade me mudou.

(Ritxar Bacete • Antropólogo)

Hoje em dia o pai tem um papel bem diferente mesmo do que o autoritário: o pai é aquele que encaminha a criança desde um pequeno ser vivo até um ser humano integrado socialmente.  E essa proximidade de pais com seus filhos tem sido muito positiva pra ambos lados: homens envolvidos na criação ajudam a aumentar o interesse das meninas em profissões mais diversas: engenharia, física, direito, posições de alta gerência e diretoria, aviação, programação, chef de alta gastronomia e política são carreiras historicamente masculinizadas e que cada vez mais as meninas estão considerando.

Ao mesmo tempo, criar um filho é uma oportunidade para os homens, de relacionar-se de maneira diferente com a família, o trabalho, de poder ser mais suaves e expressar esse afeto. 

No fim, o que é ser pai?

Se fizéssemos essa pergunta alguns anos atrás já saberíamos a resposta – curta e dura. Mas hoje em dia estamos chegando à conclusão que cada pai e cada mãe podem encontrar seu jeito de paternar e maternar, e como fazer isso em equipe. Desde a responsabilidade, o sustento e a disciplina até o cuidado, encorajamento, acolhimento e estímulo deste pequeno ser vivo. 

E os bichinhos? Será que ser tutor de um pet tem alguma semelhança com a paternidade? Existe isso de pai de bicho?

Muitas famílias humanas contam com integrantes peludos. E muitas famílias são compostas somente com bichos que são filhos do coração. Falamos com pais de todos os tipos: de crianças, cães, gatos e até coelhos.

E dá pra ver que cuidar de um ser vivo que amamos incondicionalmente, além de ser uma experiência enriquecedora como pai de bicho, pode ser também uma preparação muito útil para a paternidade de humanos: amar, ensinar, dar limites, cuidar da alimentação e do conforto, da felicidade e bem estar, ter orgulho e corujar – curtir passar tempo juntos e cuidar do presente e futuro desse serzinho. E o aprendizado que eles proporcionam, também, aprendemos a ter paciência, a nos levar menos a sério, a entender que às vezes vai ter bagunça e caos e tudo bem, também que tem hora que não é não.   

Me sinto pai de bicho sim. Têm muitos paralelos e semelhanças na nossa forma de cuidar de bichos ou crianças: a paciência, dedicação, educação, amor e cuidados com alimentação e bem-estar.  É um trabalho que exige bastante, mas a recompensa não tem preço! nos disse o Fábio. 

Na casa do Fábio e da Lara tem o Bento, um pequeno que ama muito todos os bichos, não curte muito colocar sapatos e adora brincar com água, e uma família estendida de peludos: Pepa e Lili são Goldens, Maria é uma gatinha adotada, Lina e Lino são coelhos que se juntaram ao grupo recentemente a pedido do Bento e que são muito bem cuidados pelos três humanos da casa.  Me sinto responsável pelo bem estar deles, quando não tenho tempo durante a semana no final de semana foco em curtir mais eles. falou o pai da tropa.

 

A gatinha Maria, irmã da Pepa e da Lili

Na casa do Rafael e da Andreza tem a Oli, uma pequena descolada e intrépida que adora aventuras diferentes e brincar de tudo, e os “irmãos mais velhos” felinos Jiraiya e Django. A casa da família é lar temporário para gatinhos resgatados pela ONG Crazy Cat Gang, mas a Oli já sabe cuidar deles sem esmagar de fofura, e fica muito feliz quando são adotados pelas famílias definitivas.

 Como eu tinha os bichinhos antes de ter uma filha, sinto que aprendi muita coisa que me preparou para a paternidade: a ter paciência com eles, saber o tanto que eles aprontaram destruindo as coisas no começo, a cuidar da comida, educar, limpar o cocô, dar bronca de vez em quando. Quando chegou a Oli eu já estava preparado. É bem semelhante, eu acho. Não me sinto tão pai deles, me sinto mais como um amigo. Mas é uma experiência em que aprende-se muito, só de conviver com peludos e filhos: é sempre uma troca, toda hora uma coisa nova. O amor dos bichinhos é incondicional. E isso é por parte deles e do nosso lado também.” 

Neto, apesar de ser o tio mais coruja com os sobrinhos de coração, não tem filhos humanos. Ele é pai dos pugs Chico e Theo, e não poupa cuidados com ambos. Chico recentemente passou por uma cirurgia oftalmológica e Neto mobilizou amigos e família para torcer pelo peludo, que passa muito bem e cheio de amor. Cada um dos peludos tem uma personalidade própria, o caçula mais energético, arteiro e carente (adora chamar a atenção!) e o primogênito mais carinhoso, faminto e bonzinho – ama dormir grudado. Com a chegada dos dois a rotina mudou totalmente! O passeio é todo dia, sem exceção, e aos finais de semana vão ao parque socializar com outros peludos. 

 

Neto, Chico e Theo

O Neto contou pra gente como ser pai é um misto de amor e preocupação, de alegria intensa e culpa, em que a gente fica sempre dividido tentando dar nosso melhor – mas eles nos ensinam muito mais do que nós ensinamos a eles. Para ele o maior desafio da paternidade dos peludos é se sentir presente por inteiro quando está com eles, pois é pouco tempo que temos juntos e acordados e por isso é tão valioso, por isso precisamos estar conectados. Existe toda uma vida para tocar.

Eu acho que cuidar de cachorros nos ensina a ter responsabilidade com outro ser vivo. Nos mostra o que virá quando for com bebês humanos. Diria que é apenas o passo inicial sobre como é ter filhos mesmo. Ser chamado pai de bicho não me incomoda, eu adoro na verdade. E até minha família já entrou nessa. Minha mãe fala com eles assim ‘casa da vovó’ e até minha irmã se refere a eles como tia.” Neto, pai dos pugs Chico e Theo

Cassiano sempre teve facilidade com bichos. Na casa dos pais já cuidou de cachorro, passarinho, peixe, jabuti e até furão. Hoje tem o Tim Tam, um mestiço de maltês adotado, e Berenice, gatinha que adotaram ainda bebê. Diz que não é pai de bicho, e ao mesmo tempo pega um dos peludos no colo para mostrar o movimento na janela com doçura, e faz carinho na outra enquanto conversa com ela.
Cassi, Berê e Tim Tam

 

Eu me preocupo se estão com frio, fome, se comeram ou não, se precisa de remédio, se precisa tosar, se dormiram bem em uma caminha confortável, pela manhã abrir a porta para eles subirem na cama, e levar sempre pra passear. A gente se preocupa com as experiências deles, que não fiquem doentes nem tristes. A gatinha é mais fácil, ela se vira, mas a gente precisa cuidar bem deles porque não conseguem fazer as coisas sozinhos. Gosto que a Berenice de manhã pede colo e é bem carinhosa, e que o Tim Tam entende tudo mas é espertinho e só ouve o que convém.”  Cassiano, tutor da Berenice e do Tim Tam.

 

E não é que realmente é parecido? E você, qual é sua história com filhos com e sem pelos?

Fontes:
Pesquisa Instituto Promundo
Conteudoteca Sesc São Paulo
El País Internacional
Meio e Mensagem